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Confiança perdida cedo é mais difícil de recuperar



Em relacionamentos baseados em confiança mútua, traição logo no início da relação pode ser mais difícil de superar do que se ocorrer após os vínculos terem sido estabelecidos, de acordo com um estudo publicado no boletim científico Personality and Social Psychology.

Embora trair a confiança do outro nunca seja bom para o relacionamento, os resultados mostram que quando a traição ocorre cedo, as sementes da dúvida uma vez plantadas podem permanecer para sempre, explicou Robert Lount, co-autor do estudo, professor do College of Business da Ohio State University, nos Estados Unidos. "A primeira impressão é importante quando você quer construir uma confiança duradoura", disse Lount.

O estudo parece contrariar a crença popular de que muitos bons relacionamentos começam mal. "Os nossos resultados contrariam a fórmula hollywoodiana onde o ódio à primeira vista leva depois a um relacionamento apaixonado e maravilhoso", disse o especialista. "A probabilidade de isso acontecer na vida real é muito pequena". "Se você começa com o pé esquerdo, o relacionamento pode não se recuperar completamente nunca mais". "É mais fácil recobrar a confiança depois de uma deslealdade se você já tem um relacionamento forte", acrescentou.

Em duas experiências associadas, Lount e a sua equipa convidaram estudantes da faculdade a participar de jogos onde os seus parceiros traíam a sua confiança no início ou no meio do jogo. O objectivo era verificar quão dispostos os estudantes estavam a cooperar com o parceiro após a sua confiança ter sido traída.

Os pesquisadores usaram um jogo famoso em psicologia, o Dilema do Prisioneiro. Nesta versão, os dois jogadores tinham de decidir isoladamente, sem falar um com o outro, se iriam cooperar mutuamente ou trair um ao outro em troca de uma recompensa financeira. Se ambos decidissem cooperar, ganhavam US$ 24 cada.

Se um jogador decidia trair e o outro decidia cooperar, o traidor ganhava US$ 30 e o parceiro traído ganhava apenas US$ 6. Se ambos se traíssem, ganhavam US$ 12 cada. Segundo o especialista, os pagamentos recompensando a cooperação tinham o objectivo de incentivá-la. Como parte da experiência, os participantes também leram um texto sobre cooperação, descrevendo quão benéfica ela é em jogos desse tipo.

E para estimular os participantes a levar o jogo a sério, os especialistas anunciaram que vários voluntários seriam seleccionados aleatoriamente para receber em dinheiro real parte da quantia ganha durante o jogo. Na primeira experiência, 138 estudantes jogaram várias rodadas em computadores que, segundo os pesquisadores, estavam conectados a estudantes noutra sala.


Entretanto, eles estavam na verdade jogando com a máquina, programada para traí-los num ponto específico durante mais de 30 rodadas do jogo. Alguns computadores estavam programados para trair o estudante nas duas primeiras rodadas do jogo. Outros, para trair o jogador nas rodadas seis e sete ou onze e doze.

Em todos os casos, os computadores foram programados para cooperar com o jogador nas 30 rodadas que sucederam a traição, independentemente das jogadas dos participantes. Um outro grupo de estudantes jogou com máquinas programadas para sempre cooperar com os participantes, quaisquer que fossem as suas jogadas durante a experiência. Os participantes recebiam avisos do computador quando faltavam apenas dez rodadas para o fim do jogo.

"O jogo final é muito importante, porque se você decide ser desleal, o seu parceiro não tem muitas oportunidades de se vingar", disse Lount. "Se não confia no seu parceiro, é na última rodada que existe maior probabilidade de você o trair". Nesta experiência, os participantes que foram traídos nas duas primeiras rodadas do jogo apresentaram menor probabilidade de cooperar no final do jogo.

O seu índice de cooperação foi menor do que 70% nas dez últimas rodadas, ou seja, este grupo foi o que menos demonstrou confiança nos parceiros. Participantes traídos mais tarde - após dez rodadas de cooperação - tiveram maior probabilidade de cooperar nas rodadas finais: acima de 90%. Esse índice foi na verdade ligeiramente maior do que o obtido por participantes que não foram traídos durante todo o jogo.

Lount chamou a atenção para o facto de que, em todos os casos, o computador traiu os participantes o mesmo número de vezes - apenas duas vezes durante as mais de 30 rodadas da experiência. O momento das traições, no entanto foi crucial. "Uma deslealdade imediata é particularmente difícil de superar, e traições mais tardias são consideravelmente menos prejudiciais", disse.

Num questionário preenchido pelos voluntários após a experiência, os que foram traídos logo no início avaliaram os seus parceiros como menos confiáveis do que aqueles cujos parceiros os traíram mais adiante. A segunda experiência, feita com 108 estudantes, foi igual ao primeiro, mas os voluntários tiveram de responder a uma lista pequena de perguntas a respeito dos seus sentimentos e da sua percepção em relação ao parceiro imediatamente após a traição e, depois disso, a cada dez rodadas.

Participantes que tiveram a sua confiança traída logo no início fizeram as avaliações mais negativas dos parceiros. Embora essas avaliações tenham melhorado com a passagem do tempo, mesmo depois de 20 rodadas com cooperação após a primeira traição, a demonstração de deslealdade logo no início gerou avaliações mais negativas do que quando ela não ocorreu ou ocorreu mais tarde.
"Os nossos resultados sugerem que traições da confiança no início são particularmente graves porque prejudicam seriamente as impressões que as pessoas têm a respeito do seu parceiro, e isso é difícil de reparar", ele disse.



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Fonte: Diário dos Açores   2009-01-14