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Futuro Adiado (adopção de crianças)



Feche os olhos e imagine o seu filho de cinco meses no berço de uma instituição. Depois acelere o tempo e volte a vê-lo quatro anos depois, a puxar para trás os lençóis da cama que lhe coube na camarata.

Sente o peito apertar-se e falta de ar, e uma vontade irresistível de deixar o pensamento fugir para outro assunto? Resista e volte aquela camarata, e imagine que mais cinco anos passaram, e o seu filho agora com nove anos, continua à espera que alguém decida o que vai ser o seu futuro...

 
Que pedido estúpido, defende-se você, para que é que estou aqui a fazer este exercício se o meu filho nunca estaria numa instituição, porque não sou “como essas” mulheres que abandonam as crias, porque a minha família não é disfuncional, porque, porque... Sim, decididamente, fazer do nosso filho protagonista desta história é insuportável. Por isso preferimos imaginar que estas crianças pertencem a uma subespécie própria.
 
“Estes meninos não são bem como os nossos”, ouvi uma vez a uma técnica de serviço social de carne e osso. Para acrescentar qualquer coisa como “coitado do miúdo, a vida de facto não é justa, mas de certeza de que se foi para o lar tão novinho, até já está habituado”. Habituado, claro. Não é telenovela.
 
É a realidade de 10 mil crianças institucionalizadas em Portugal. Mas nem todas podem ser adoptadas, vem logo dizer um responsável contristado, até porque “ninguém” deseja crianças com mais de três anos. O que não só não é a verdade toda, bem mais complexa do que isso, nem explica porque é que tantas destas crianças ficaram em banho maria, até que expirasse o seu “prazo de validade”.
 
Enquanto isto há pelo menos 2.346 candidatos “certificados” à espera (depois de um processo cheio de episódios de prepotência, como os inquiridos pela DECO denunciam), e centenas de outros haveria provavelmente se tudo não fosse tão difícil. Quanto mais tempo vamos permitir que tudo continue na mesma?

Isabel Stilwell | editorial@destak.pt


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Fonte: Destak   2011-01-28