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Como viver quando os filhos saem de casa - aprender a viver sem eles



Aprenda a viver sem eles
 
Durante anos, queixámo-nos de que não tínhamos tempo para acabar um pensamento que fosse. 
 
E quem diz um pensamento diz um banho de imersão, uma conversa telefónica ou, mesmo, ao vivo. Houve momentos em que desconfiávamos que os nossos neurónios não sabiam fazer mais do que somar contas de supermercado ou, na melhor das hipóteses, completar fichas de TPC (trabalhos para casa) do primeiro ciclo e remendar bibes e meias esburacadas. 
 
Para não falar nos projectos que arrumámos na gaveta por falta de tempo, porque era coisa que nunca chegava, entre o trabalho oficial e o oficioso, que o Instituto Nacional de Estatística prova que, pelo menos para as mulheres, representa igualmente tantas horas por dia como o outro, numa dupla jornada esgotante e, já agora, sem direito a vencimento.
 
Queixámo-nos de tudo isso e de muito mais. Lamentámo-nos porque não nos era permitido um fim-de-semana romântico, nem um jantar à luz das velas, nem tão pouco uma noite ininterrupta, ou um encontro fora de horas, ou fora de portas (do quarto…).
 
Pois é, dizem os terapeutas familiares, os casais queixam-se de serem antes de mais, e acima de tudo, pai ou mãe, mas quando se vêem confrontados com umas férias passadas sozinhos, porque «eles» tinham outros planos ou, mais grave, percebem que vão ficar apenas os dois em casa, de novo marido e mulher, podem entrar em pânico. 
 
Ou mesmo que não entrem logo, é provável que para lá da adaptação ao silêncio reconquistado, e das mais do que naturais saudades, até da loiça apinhada ao lado da máquina (mas nunca dentro), da roupa atirada para o chão, e de tantos detalhes insuportavelmente irritantes, mas que eram marca da sua insubstituível presença, a relação entre ambos sofra um forte embate. 
 
Afinal, de gestores de uma sociedade, que é aquilo em que muitos casais se tornam, cada um com os seus pelouros e funções consultivas ou executivas, conforme o caso, precisam de voltar a encontrar uma vida própria.
 
Aquilo a que os terapeutas Claudia e David Arp, que acabam de lançar um livro para gente com o ninho vazio (10 Great Dates for Empty Nesters). chamam a preparação para «a segunda parte do casamento».
 
Silêncio àmesa Todos nós já os vimos, ou até, provavelmente, numa ocasião ou outra, representámos uma das partes. Refiro-me àquela cena em que ele e ela permanecem em silêncio à mesa de um restaurante, evitando os olhos de quem têm à frente, e procurando nas mesas do lado alguma conversa interessante que possa ir entretendo ou um pormenor que sirva de pretexto para um qualquer tipo de diálogo com o parceiro de refeição.
 
«Não ter assunto de conversa é uma das primeiras queixas dos casais que ficam sem os filhos em casa», diz David Arp, numa entrevista dada à revista Time. Durante anos, explica, os pais falaram essencialmente dos seus rebentos, repetiram excertos das suas conversas, comentários de amigos e professores, discutiram notas, horários de saídas e entradas, ou combinaram estratégias.
 
Quando essa fonte seca, e depois de uma troca de palavras sobre empregos e a crise económica, o vazio pode instalar-se. Na agitação das últimas duas décadas, o tempo médio que levam a criar dois filhos, por exemplo, é provável que «já nem  você saiba quem é, quanto mais quem é ele», sublinha, sem rodeios, o terapeuta.
 
Caso seja uma mãe que se dedicou prioritariamente aos filhos, a situação pode evoluir mesmo para uma depressão, porque a única imagem que a mãe tem de si é de ser isso mesmo, mãe. Sem filhos, é-lhe roubado aquilo que tem constituído a sua razão de ser. Para além do embate de descobrir que, afinal, mesmo sem ela por perto, sobrevivem e, ainda por cima, muito bem obrigada. A verdade é que o ninho vazio obriga, de uma forma mais ou menos intensa, a um processo de redescoberta de identidade. 
 
 há quem acorde nesse momento e, olhando para aquele com quem divide a cama, decida que não é, decididamente, a pessoa com quem quer continuar a viver.
 
 
Cursos para pais em sofrimento
 
Nestas coisas não há como os americanos: se há um problema, cria-se já uma associação, um curso, um grupo de apoio. E foi o que fizeram para os casais que não conseguem lidar com esta separação, mas que não querem desistir um do outro.
 
E o livro de Cláudia e David Arp tem-se tornado o manual de muitos destes encontros. Os autores defendem que a sua obra é basicamente um livro de estudo e recomendam aos casais que marquem um encontro amoroso (date) fora de casa, mas que, em lugar da conversa mole, façam juntos uma das páginas de exercícios propostos. 
 
Basta ler os temas das «fichas» para perceber que o assunto pode dar para o torto, sobretudo se o que existir entre ambos não for mais do que uma paz podre. 
 
Ou seja, só se recomenda para quem esteja, de comum acordo, decidido a passar por todas as provas de fogo. Quer exemplos? Então imagine que hoje marcou um quarto de hotel para passarem o fim de semana, mas em lugar de uma garrafa de champanhe manda vir duas canetas e dois blocos de papel para começar o trabalho. Depois abre ao calhas numa página e sai-lhe, vamos imaginar, o tema «sexo» (como podia sair dinheiro, raiva, fidelidade…). Aí, ambos são compelidos a responder a uma série de perguntas, em que ficará visível o que pensam sobre a sua vida sexual comum. 
 
A ideia é que, a partir das respostas diferentes às mesmas perguntas, se discuta o que um e o outro esperam da sua vida sexual futura, de como encaram o envelhecimento neste capítulo, se o facto de terem a casa por conta própria torna mais livre o seu desejo ou se a tristeza de a ver vazia, pelo contrário, o/a tornam mais retraído e com menos vontade de partilhar seja o que for, cama incluída.
 
 
Mais original do que uma amante
 
 
Nem sempre os casais conseguem fazer estes TPC sozinhos, ou seja, sem a ajuda de um terapeuta, daíos cursos e as acções de formação. O importante, dizem os autores do livro, é que procurem ajuda se precisarem dela, porque um mediador pode estimular esta discussão, mas simultaneamente controlar a agressividade e impedir que se torne apenas um rodeo de acusações que não levam a lado nenhum. Segundo defendem esta preparação para o Casamento parte II pode ser muito emocionante, e há casais que voltam a apaixonar-se perdidamente, revivendo um período de paixão que julgavam já ser coisa do passado. 
 
Sempre é mais original, dizem os especialistas, do que a banalíssima opção por um divórcio, ou por uma amante! 
 
 
Isabel Stilwell
 
(fonte Destak)


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Fonte:    2013-03-08