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Odisseia açoriana
 
 
Aos 52 anos, Genuíno Madruga conseguiu o que sempre quis, toda a vida. Agora, quer mais
  
Não, este não é um conto de fadas e o sonho não tem lugar aqui. Quando o pescador Genuíno Madruga encostou o casco do «Hemingway» na nova marina da Horta, ao princípio da tarde de sábado passado, 30 mil milhas náuticas depois dali ter partido 19 meses antes, acabava de cumprir um «objectivo» que se fixara para a vida, muitos, muitos anos atrás. Regressava a casa, finalmente, mas, em vez da meia dúzia de pessoas que tivera na despedida - precisamente às 9 horas de 28 de Outubro de 2000 -, no velho cais de Santa Cruz aguardava-o, agora, a maior multidão que ali se via desde o fim da II Guerra Mundial. Nada nisto era obra de deuses ou duendes ou fruto de varinhas mágicas.
Aos 52 anos, o primeiro açoriano, e segundo português, a circum-navegar o planeta à vela, em solitário, acabava de demonstrar aos seus conterrâneos, cépticos na sua maioria, que «a vontade vale mais do que os subsídios», que «a determinação é mais forte do que o sonho». E todos estavam ali, orgulhosos do seu feito, por saberem que a lição de Genuíno era tão pura, natural, sincera e franca quanto o nome que usa...

Genuíno segura o neto, na Horta



 

 
Nascido em São João, na ilha do Pico, mas a viver na Horta, do outro lado do canal, desde criança ainda, Genuíno Alexandre Goulart Madruga, o «rei do cherne» como lhe chamam, não era, à chegada, o mesmo que partira. Nem podia ser. Ainda não pusera os pés em terra, tal a multidão que se acotovelava no pontão, à frente do pequeno veleiro, quando Pedro, o filho mais novo, lhe pôs nos braços o primeiro neto, nascido na sua ausência. Era, talvez, a melhor recompensa que o navegador poderia esperar. E enquanto o avô chorava comovido, as bandeiras que coleccionara dos portos de meio mundo por onde passou ondulando nos brandais, por cima dele, o filho deixava escapar, na euforia do momento, que aquela era «a primeira vez que vejo o meu pai de calções e em t-shirt!». Genuíno não conseguiria conter as lágrimas, em momentos vários, com as emoções que a recepção lhe suscitou, em catadupa, como se não bastassem as que acumulara ao longo de viagem tamanha. Chorou quando ouviu a banda da sua freguesia natal tocar as músicas que aprendera de cor, em criança. Como chorara três horas antes, quando as primeiras embarcações, com os amigos mais chegados, foram ao seu encontro, no meio do Atlântico. Naquela tarde, apesar dos foguetes, do azul e do sol, chorou mais do que era seu costume.

 
 

Genuíno Madruga mata saudades do caldo de peixe

 
Quem pensasse, porém, que as lágrimas eram sinal de fragilidade ou fraqueza, estava enganado. O pescador não demorou a demonstrar a todos como a fibra de que é feito estava, afinal, mais forte do que nunca. Antes de saborear o tradicional caldo de peixe que a comissão de recepção preparara para a festa do reencontro, Genuíno Madruga dirigiu-se a todos para dizer-lhes que era «o mesmo pescador de sempre» o que partira e agora voltava. «Mas, se esta viagem que acabo de fazer, sozinho e à minha única custa, sem subsídios de ninguém, me deu alguma coisa, foi a determinação de a usar em favor dos pescadores que continuam a ver sacrificado no mar o melhor das suas vidas». Ouviu palmas, como já ouvira o toque de buzinas e sirenes, foguetes e «verylights» estalejando no céu, a saudar o seu regresso a casa.

Num intervalo entre dois de milhares de abraços, Genuíno Madruga, um perfil de alcatraz moldado por anos de ventos e maresia, admitiu que estava ainda confuso num ponto: ao certo, não sabia dizer se estava mais contente por ter regressado, depois de conseguido o objectivo que perseguia, se triste por tudo, de repente, ter acabado. «Tudo? Bem, tudo não», emendou. «Este era o objectivo maior da minha vida. Desde miúdo, via os aventureiros, como dantes chamavam aos velejadores, chegar aqui, ficava a olhar para eles e a pensar: se conseguiram, também eu hei-de conseguir. Agora, que consegui cumpri-lo, sinto que tenho que arranjar outro. Não sei bem qual. Mas hei-de partir para outra. Talvez Cuba, a América do Sul. Com tempo, logo se verá...»

 
 

A bandeira dos Açores flutuou sempre na popa do «Hemingway»
 
O estofo de aventureiro, como o incomum do nome («entre primos e parentes próximos, somos três ou quatro Genuínos, na mesma fornada...»), vem-lhe de antepassados que, nascidos nas «ilhas de bruma», tal e qual, cedo emigraram para terras americanas, para o Brasil, a Sul, para os Estados Unidos, a Norte. Mas, o percurso dos ancestrais não implicava que, do outro lado do Atlântico, tão imenso quanto distante, chegassem remessas que permitissem ao jovem Genuíno fintas fáceis à vida difícil própria dos que ficavam. «Com 12 anos escolhi ser pescador. As opções não eram muitas, é verdade, mas a escolha tinha a ver com o coração. Era o que eu queria fazer, foi o que fiz.» Não havia escola. «Tinha um serrote e um martelo, que o meu pai me tinha dado. Comprava os pregos à medida que ia recebendo uns tostões e foi assim que fiz o primeiro barco com que pesquei, com tábuas que ia pedindo nas mercearias que recebiam mercadoria encaixotada vinda do Continente», recorda o velejador.

O pequeno barco serviu-lhe durante os primeiros anos de faina no mar. Trocou-o depois por «uma chatazinha, a 'Nanda', um pouco maior». A remos, também. Casou, entretanto, e Estela tornar-se-ia a primeira mulher a obter a cédula marítima na Capitania da Horta para poder ajudar o companheiro, e pai dos dois filhos que as marés da vida trouxeram ao Mundo, a ganhar o sustento da família, no mar. «Aquilo que eu ganhava hoje era para pagar o que tínhamos comido ontem», resume Genuíno Madruga, no domingo, um dia depois de completada a sua odisseia. Vêm-lhe lágrimas aos olhos e embarga-se-lhe a voz quando olha a fotografia da companheira, falecida em 1993, que o aconchegou toda a viagem. Recupera passado um momento. «Durante anos, além de pescar trabalhava nas docas, em pequenos serviços de estiva, para conseguir mais uns tostões...»

  


Não era o único, na sua terra, a passar dificuldades. E o conhecimento, tão íntimo quanto directo, dos «sacrifícios» e do «desprezo» a que estavam condenados os homens do mar, cedo o colocou perante opções bem claras. Nunca hesitou. Tornou-se activista sindical, empenhado na defesa dos direitos dos seus pares, quando a actividade era perseguida e denunciada pelos esbirros do regime que a condenava em tribunais de excepção. Ganhou o respeito de todos os seus camaradas pescadores, uma consideração que mantém intacta, se não mesmo acrescida, fruto do trabalho que desenvolveu como dirigente nacional da Mútua dos Pescadores. «Eram tempos mais difíceis do que são hoje. E eu acho que é importante que as pessoas não se esqueçam, por muitas melhorias que a vida de cada um possa ter conhecido», explica. De resto, não foi por acaso que escolheu o nome de «Guernica» para as duas traineiras que se sucederam à «Nanda» e com as quais introduziu inovações no arquipélago, tanto ao nível do material utilizado (fibra sintética, em lugar de madeira), como do equipamento (sonares, sondas, etc.)


Especializou-se em cherne, em pargos e garoupas, na chamada «pesca de fundo», ao mesmo tempo que, sempre que via chegar mais um «aventureiro» - assim eram conhecidos os velejadores oceânicos que escalavam os Açores, a Horta sobretudo, no período entre as duas guerras mundiais, quando a navegação era «estimada» e dependia das incertezas do radiogoniómetro e não do rigor de radares e GPS - não perdia a oportunidade de recolher, junto de cada um, informações de onde vinham e para onde iam, quantos dias de viagem tinham feito e quantos faltariam fazer, que ventos tinham encontrado... «Interessavam-me questões específicas, coisas concretas que eram importantes para o projecto que, desde muito novo, ia ganhando corpo dentro de mim: ir tão longe quanto eles, dar a volta ao Mundo também. Porque não haveria de ser capaz se o mar, afinal, era igualmente a minha vida?»

  

Conheceu, pessoalmente, muitos dos «aventureiros» que marcaram a historia da vela no século passado: Francis Chichester, Eric Tabarly, Marcel Bardiaux, para citar apenas alguns dos mais sonantes. Terá sido este último quem maior influência exerceu em Genuíno Madruga, ao longo das escalas várias que fez na Horta enquanto o pescador ia amealhando economias para concretizar o seu objectivo. «Era um homem excepcional, o único a completar quatro viagens de circum-navegação, uma delas sem escala, passando sempre pelo Cabo Horn!»

Ninguém copia ninguém. Quando se fez à aventura, anos mais tarde, Genuíno homenageou Hemingway baptizando o seu veleiro com o nome do escritor. Completada a viagem, resta a esperança de que também ele vire escritor. E conte a todos, em pormenor, o muito que aprendeu com ela. Da outra margem, entre as árvores.



 
 Cem anos de atraso 
 
COMO é possível explicar que os portugueses, descendentes e herdeiros de Gamas e Cabrais, descobridores de «novos mundos ao mundo» e dominadores dos mares, se tenham atrasado um século para conseguir inscrever nomes lusos na já longa lista dos navegadores solitários que completaram, à vela, a circum-navegação do planeta? De facto, para ver um dos seus repetir a proeza cometida pela primeira vez em finais do século XIX (entre 1895 e 1898) pelo capitão americano Joshua Slocum, os descendentes dos grandes navegadores da nossa história tiveram que esperar pelo final do século XX. Manuel Gomes Martins, comissário de bordo da TAP, tornou-se no primeiro português a repetir o feito de Slocum ao completar viagem idêntica em 28 de Junho de 1991, depois de ter deixado Lisboa em 2 de Dezembro de 1989, a bordo do «Casvic». E só 11 anos mais tarde um outro português, o açoriano Genuíno Madruga, precisamente, conseguiria igualar o feito.



A estranheza por atraso tão acentuado é maior quando se sabe quanto os Açores, o Pico e o Faial em particular, estão intimamente associados à história tanto da moderna navegação à vela oceânica como da primeira viagem de circum-navegação, em solitário, de que há registo. Nascido na Nova Escócia, Canadá, em 1844, naturalizado americano pouco depois, Joshua Slocum deixou Yarmouth, junto a Boston, a bordo do «Spray», na manhã de 1 de Julho de 1895, para só voltar a avistar terra firme a 19 desse mesmo mês quando a bruma descobre, diante dos seus olhos, «essa cúpula mística, como uma montanha de prata» que era a ilha do Pico. O navegador deixa a Horta cinco dias depois, e passa por São Miguel a caminho de Gibraltar. À parte as peripécias da viagem, relatadas na obra Sailing Alone Around The World, publicada em 1900, registe-se o segundo encontro de Slocum com açorianos, desta feita nesse «paraíso de piratas» que era a ilha de Juan Fernandez, a de «Robinson Crusoe», ao largo do Chile. Na ausência do governador, era um açoriano, «the man who called cabra a goat», que os indígenas apontavam como seu «rei».


Texto de Fernando Gaspar
Fotografias de Rui Duarte Silva


fonte: Expresso
25/5/2002



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