"A Pilar, como se dissesse água." É a dedicatória de "Caim", o último romance de José Saramago. O nome próprio da jornalista, viúva do Nobel português, é o único que aparece escrito em maiúsculas em todas as 182 páginas do polémico romance. Mas no lugar da espanhola que conquistou um lugar no coração de Saramago e nas primeiras páginas dos seus livros, esteve em tempos outra mulher: Isabel da Nóbrega.
Escritora e cronista, Isabel esteve ao lado de Saramago de 1968 a 1986. Nunca se casaram, por vontade dela. E nunca mais se falaram depois da separação, por vontade dele. As dedicatórias dos livros editados enquanto estava na companhia de Isabel (ver caixa) foram apagadas. E, mais tarde, passou a ser Pilar a mulher a quem se agradecia o amor, a inspiração e até a vida.
Apesar desta pequena iniciativa individual de revisionismo histórico, há quem garanta que não há José Saramago, o escritor, sem Isabel da Nóbrega, a menina de boas famílias que gostava de livros. "Foi a Isabel, que era uma mulher da alta sociedade, quem lhe abriu imensas portas", defendeu o escritor e amigo Fernando Dacosta à revista "Sábado". Foi a cronista e autora de "Viver com os Outros" (Prémio Camilo Castelo Branco, 1964) que tornou Saramago numa figura aceite na elite intelectual portuguesa.
Isabel cresceu na Estrela, em Lisboa, e conviveu com a alta sociedade do Estoril, uma burguesia pouco dada a leituras que enchia a jovem rebelde (para os padrões da Linha) de tédio. Sozinha em casa, começa a escrever para combater a solidão - está para breve a publicação de um novo romance. Notabilizou-se como cronista de rádio e imprensa, fundou "A Capital" e assinou mais de 3 mil crónicas divididas por vários formatos e publicações diferentes.
O rapaz das badanas Isabel da Nóbrega marcou a vida de Saramago, "quer ele queira quer não". A expressão é usada repetidamente pela própria durante a última entrevista que concedeu, em Janeiro do ano passado, para a revista "Tabu", do semanário "Sol". Quer Saramago queira, quer não, foi ela quem ajudou o escritor a escolher o nome "Blimunda" do "Memorial do Convento"; que o levou pela primeira vez ao Convento de Mafra; que o pôs a escrever as crónicas do jornal "A Capital" que o lançariam no jornalismo. "Quer ele queira quer não, estou na vida dele assim", conclui.
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